quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Estou bem

Hoje estou bem. Peço desculpas a quem só gosta de ler morbidades, mas estou bem.
Não me lembro com o que sonhei (coisa incrível, sempre lembro dos meus sonhos, com detalhes). Minha mãe, numa época da vida, não se lembrava de seus sonhos e dizia que não estava mais sonhando. Eu lhe disse:
- Mãe, você está sonhando sim, só não se lembra. Todo mundo sonha.
Não sei se ela ficou mais triste ou mais alegre com a notícia, mas me disse:
- Eu vou orar e pedir a Deus para devolver os meus sonhos ou a minha memória - não foram exatamente essas palavras, mas foi esse o sentido.
Então, várias vezes eu a via orando. Um dia ela veio me contar que tinha voltado a sonhar e estava muito feliz.
Eu sei que sonhei a noite toda, só não me lembro, isso mostra que não foram sonhos intensos, como têm sido até agora.
Hoje, estava na cama vendo o jornal do meio-dia, quando o telefone tocou. Vi-me forçada a me levantar para atendê-lo, é claro que já tinham desligado. Aí arrumei a cama, igual ao meu nariz, e quando fui abrir as cortinas percebi que já estavam abertas. Fiquei pensando:
- Será que eu dormi com as cortinas abertas?
Não, lembro-me muito bem de tê-las fechado.
Então perguntei aos meus mortos:
- Foram vocês que abriram as cortinas?
Eles fingiram que não ouviram, ficaram "olhando pra ontem" disfarçando. Aí concluí que eu devo tê-las aberto e esquecido.
Tomei a benção à minha avó, à minha tia, à minha mãe, dei um olá para o Donia e fiquei ali sentindo uma vibração de felicidade vindo em direção ao meu coração.
Foi bom.
Conversei, depois, com duas irmãs, um irmão e com alguns sobrinhos (as), por telefone, e agora estou bem, só esperando terminar o Estúdio I, para tomar banho e ir ao mercado e à loteria (não necessariamente nessa ordem).
Intão, inté.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Quinta lembrança e muita dor na alma

Oi,
Estou meio pra baixo hoje, dirá você:
- Que novidade!!!
É mesmo, tenho que sair dessa, mas não sei como. Tem hora em que eu fico toda animadinha para fazer alguma coisa, mas aí vou desanimando, desanimando, no final, não faço.
Estava com vontade de sair e comprar sopa. Terei que mudar de roupa e isso já me desanima. Pelo menos hoje estou lavando roupa (é a máquina que está lavando, bem entendido) mas, ao menos, tive ânimo para colocar as roupas lá dentro. Agora, a porqueira do amaciante acabou e não estou a fim de ir ao supermercado, que fica em frente à minha casa, porque está sempre cheio.
Esta noite tive um sonho estranho. Sonhei que estava lá em Tomazinho e o pastor Ivaldo estava orando para minha mãe ressuscitar. Ela saiu do túmulo (no meu sonho ela estava enterrada num túmulo lá mesmo no quintal, na verdade ela está numa gaveta, num cemitério), veio caminhando para nós. Imagine você nossa felicidade. Minha mãe viva, novamente. O velho (meu pai, que morreu em 1990) vinha perguntar como aquilo havia acontecido e nós explicávamos, alegres. Mas, minha mãe não estava feliz, ela dizia que estava bem melhor morta, não sentia dor, não estava em lugar nenhum, não tinha consciência de nada, era como se estivesse dormindo. Fiquei triste por mim e por ela. Por mim, por saber que ela preferia a morte, por ela, por tê-la trazido de volta para sofrer novamente.
Depois disso, acordei. Triste.
Tinha posto o relógio para despertar às 11 da manhã porque não queria passar o dia inteiro dormindo como ontem, mas acabei ficando na cama até 1 hora da tarde e levantei sem vontade e sem motivo.
Depois das 4 resolvi tomar banho e procurar o termo de garantia da câmera da Mima, que não sei onde está. A última pessoa que disse que o viu foi a Jane, daí concluo que ele pode estar em qualquer lugar da casa, menos onde deveria. Terei que revirar quartos e sala.
No meu quarto procurei hoje, achei vária fotos de mortos que amo e amei. Saí colocando-os sobre a escrivaninha: minha avó Sunegundes (na verdade o nome dela era Maria da Conceição) que não cheguei a conhecer, minha tia Deó, meu irmão Adonias, ... só não coloquei foto do velho porque acho que ele não gostava muito de mim. Ainda vou colocar a do Antônio e a do vovô. Já que os vivos me abandonaram, viverei cercada pelos mortos. Deu certo para a minha mãe. Ela ficou assim e tempos depois morreu. Pronto. Está feliz. Não quer mais voltar.
Me deu vontade de chorar, meus olhos estão marejados.
Vou contar então mais uma lembrança que tive hoje:
Eu tinha 4 anos, o Adonias tinha acabado de nascer. Minha mãe estava trocando a fralda dele e deu falta do alfinete. Procurou-o, perguntou, depois ao ver-me muito quietinha com as mãos para trás, pediu-me para ver o que eu tinha nelas. Eu estava segurando o alfinete aberto. Ela quis saber o que eu iria fazer com ele. Eu respondi:
- Vou infiar no imbigo dele. É mais um que veio comer a minha comida!
Viram? Psicopata. Só me preocupava com a comida que vivia faltando e aqueles bebês sempre chegando famintos. Depois, o Donia (como o chamávamos) virou um grande fã meu. Fui quase uma mãe para ele. E, depois do da minha mãe, foi o falecimento que mais me doeu até hoje.
Inté.


quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Oi,
Fui a minha psiquiatra, ela sabe exatamente o que e como dizer as coisas. Explico: combinei com uma amiga de viajar com ela para a terra dela e lá ficar pelo menos uns 15 dias. Ela me disse que não se importava se eu tivesse que parar dez vezes por dia para ir ao banheiro. Ela me ligou para ver preços de passagens Rio-Congonhas. Os preços estavam bons, combinei de fechar o mais depressa possível e surtei. Claro, que só surtei na madrugada. Tive milhões de pesadelos, enjôos, diarréias e afins. O café da manhã não passava pela garganta, as mãos tremiam como vara verde. Eu estava mal. ainda bem que hoje tinha consulta com a dra. L. às 14:20, conforme o papel que ela me deu. Levantei-me às 13, muito cansada, tomei banho, tomei café, escovei os dentes e fui. Fiquei um tempão no ponto do ônibus, vendo a hora passar. Dá para ir a pé, são só dois pontos, mas tenho medo. Finalmente, quando o ônibus chegou, vi que estava atrasadona, andei rápido pelas calçadas, subi ao 11º primeiro andar, toquei a campanhinha e entrei. A ante-sala estava vazia e ela não veio me atender. Fiquei olhando para o trânsito na rua, com a sensação de estar sendo observada por câmeras escondidas. Queria pegar uma revista, mas ao mesmo tempo ficava imaginando a dra. assassinada dentro do consultório e eu ali esperando. Seria a primeira suspeita se fosse embora, pelo menos deveria dar o alarme do corpo. Como não carrego bolsa, não tinha onde esconder uma arma.
Nisso a dra. abriu a porta, despachou a cliente anterior e me chamou, Contei-lhe todas as minhas aflições. O mal que havia passado, o medo de viajar e passar o primeiro aniversário de morte de minha mãe num lugar estranho. Incomodar pessoas que mal me conhecem com a minha dor...
Ela me perguntou se eu queria ir, disse-lhe que não, mas não tinha coragem de contar para a minha amiga, afinal quando precisei ela foi a número um a me amparar.
Então a dra. me disse para ser sincera com ela, que ela iria me entender, me disse para passar o aniversário de morte de minha mãe com a minha família, contando causos alegres sobre ela e fechando, assim, o luto.
Achei melhor. Cheguei liguei para a amiga que foi super compreensiva, "Santa Jú", e decidi quebrar minha promessa de não voltar à Baixada este ano. Preciso de minha família e não é hora de me afastar. Passarei o natal lá e o ano novo em casa, porque não resisto aos fogos de Copacabana, e vamos ver no que vai dar.
Quero ir ao cemitério conversar com a gaveta de minha mãe. Sei que ela não está mais lá, mas seu corpo está e isso me basta.
Chega por hoje, estou tomando Martini, já tomei o remédio pra dormir e meus olhos já estão cerrando.
Bye

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Chorando por dentro

Aqui eu posso dizer que estou triste, deprimida.
Quando alguém me vê assim, sempre me manda reagir, como se fosse simples. Não é não, gente. Depressão é uma tristeza que nunca passa, os remédios, como o próprio nome diz, só servem para remediar, no dia em que a gente não toma, lá vem ela com força total.
Se alguém me perguntasse qual foi o dia mais triste da minha vida, eu diria que foram todos, desde que minha mãe morreu. Até quando esse nó na garganta quando me lembrar dela? Até quando essa lágrima que vai para dentro e teima em sair pelo nariz ou então é engolida? Que dor! Quanta dor!
Vou lá tomar o antidepressivo e meio rivotril. Depois, vou assistir um filme. Que dor na minha alma!

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Sem lembranças

Cheguei da minha psiquiatra. Mais receita de Rivotril 2.0 mg. Agora tomarei 1/2 à tarde (já tomei com cerveja) e um inteiro à noite (tomarei com a bebida alcoólica que tiver). Mais um remédio que me deixará alegrinha daqui a alguns dias,não me lembro o nome, só quero ficar alegrinha. Quero ter vontade de caminhar, de fazer mousses, pavês, comidas diferentes...
Quero ter vontade de viver novamente.
Ontem minha mãe teria feito 87 anos. Uma amiga uma vez me disse que nossas mães já estavam fazendo horas extras na vida, mas eu queria que a minha fizesse durante uns cem anos, com a vitalidade e vontade de viver que ela tinha, aí veio o filho-da-puta do câncer e a levou, com todo o sofrimento que ela não merecia. Então, ontem passei o dia na cama sem vontade de falar com ninguém, nem de me levantar para ver a vida. Foi o meu primeiro dia de finados triste, sempre fazíamos festa ou coisa parecida no niver da mamãe. Este ano foi só a lembrança de que ela partira e de que nunca mais estará aqui, dizendo que se a casa não estiver bonita ela não quer nada.
Que merda... estou chorando. Tenho várias lembranças pululando em minha mente, querendo sair e serem publicadas, mas só me lembro da minha mãe que nunca mais estará aqui. Quero morrer. Quero sumir. Quero não existir...
Chega por hoje. Estou um cocô empalhado...

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Quarta lembrança - 1ª vez na cadeia

O título é verdadeiro, mas, antes de contar essa história, deixe-me dizer que hoje estou mal. Uma gripe danada me foi passada por minha cunhada. A cabeça está prestes a explodir. Uma coriza medonha me consome. Filho e sobrinho fazendo malcriações. Enfim, saco cheio.
Vamos lá:
1960 - Tinha 7 anos e estava no primeiro ano, numa escola pública de onde eu morava. Essa escola não existe mais, foi demolida para que alargassem a linha do trem. Naquela época tínhamos que comprar tudo, não havia governo nos dando merenda nem material escolar, então, na maioria das vezes não tínhamos merenda ou quando muito, levávamos pão com açúcar. Quando o caderno acabava, os meus sempre sujos e com muitas orelhas, escrevíamos em papel de pão. Nossa borracha era miolo de pão fresco. Quando ficava velho, esfarinhava e não servia mais. Nossa cola era feita de arroz ou macarrão cozidos. No uniforme só duas letrinhas EP. Elas diziam tudo.
Bem, em outubro a escola resolveu nos levar para a Quinta da Boa Vista. Lá fomos nós, toda a escola, do primeiro ao quarto ano. Criança pra caramba. Nossa primeira visita foi ao Museu. Ficamos encantadas com tudo o que víamos. Eu e minha irmã mais velha, que na época tinha uns dez anos resolvemos ir a uma janela do museu para ficar admirando a vista. Quando demos por nós, todo mundo tinha saído da sala onde estávamos. Nos vimos perdidas.
Vagamos pelo museu, perguntando onde ficava a saída. Todos falavam: - É lá perto do elefante. Mas, que elefante? Não conseguíamos encontrar nenhum elefante. Finalmente, quando saímos do museu, nos vimos na rua, chorando como duas condenadas. O guarda de trânsito nos parou, dissemos que estávamos perdidas e ele nos levou para a delegacia mais próxima.
Passamos o dia lá. Na hora do almoço chegou comida, ainda me lembro do cardápio: feijão, arroz e carne seca com abóbora. O delegado deu uma marmita para cada uma de nós e disse que se não comêssemos tudo, ele nos poria nas celas.
Ficamos horrorizadas, passamos em frente às celas e os presos nos pediam a nossa comida. Os braços quase nos tocando.
Arranjamos um lugar para sentar e comemos aquela comida horrível: o arroz estava duro e o resto sem gosto. Depois, lavamos as marmitas e ficamos quietinhas, ali, sentadas, imaginando que ficaríamos presas até virarmos adultas. Não podíamos mais chorar, a polícia tinha proibido.
Lá pelas tantas, o guarda que tinha nos deixado lá passou para saber se alguém havia nos procurado. É claro que não.
Ele perguntou onde morávamos, quando falamos o bairro ele disse:
- Então, pode deixar que eu deixo elas em casa, moro em Nilópolis e sei onde fica esse bairro de São João.
Ficamos felicíssimas e saímos de lá de mão dadas com o guarda.
Quando estávamos na estação para pegar o trem, eis que surge toda a escola, para tomar o mesmo trem. No instante em que me viu, minha professora veio em minha direção com a mão levantada para me bater, indagando onde estivéramos até aquele momento. O guarda não permitiu que ela me tocasse e eu fiquei quietinha escondida atrás das pernas dele (fazendo caretas para todos os colegas), vai que aquela megera me pegasse.
O rapaz nos deixou em casa, contou a história do acontecido para a minha mãe, ela o agradeceu por sua bondade e ele se foi.
No dia seguinte, dona Janete, esse era o nome da minha professora, perguntou se minha mãe tinha me dado uma surra.
Disse-lhe, com meu habitual atrevimento:
- Ela não é ruim como você.
Então levei a surra e ainda fui ficar de castigo atrás do quadro - que ficava sobre um tripé - do qual eu era uma cliente contumaz. Aliás, eu adorava ficar de castigo atrás do quadro, porque eu estendia a mão por baixo dele, pegava alguns pedaços de giz e lá ficava o restante da aula, escrevendo.
A megera da dona Janete só parou de me colocar de castigo atrás do quadro no dia em que eu o derrubei em cima dela (foi sem querer, eu juro), a partir de então, as surras se intensificaram e eu passei a fugir da escola todos os dias.
Mas, isso já é outra história...

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Terceira lembrança - Vovô malvado ou temerário?

Sei que tinha uns cinco, seis ou sete anos (não me lembro direito, vovô morreu quando eu tinha sete anos), só sei que naquela época a polícia perseguia, de verdade, quem jogasse ou apontasse jogo-de-bicho. Vovô, é claro, como já tinha mais de sessenta, tinha tb muito medo de ser preso, então o que o velhinho fazia? Pedia à sua netinha, eu, nessa tenra idade que fosse fazer a fezinha para ele. Minha mãe ficava desesperada.
- Mas vovô (é, ela tb o chamava assim, embora ele fosse seu sogro) - e se a polícia aparecer? Vão prender a Nem (esse era o meu apelido, aliás, é, na família). Ela é só uma criança, vão prender a minha filha.
- Fica fria, Maria (é claro que o vovô não falava assim, é que não me lembro como ele falava e já estou atualizando sua linguagem), a Nem é esperta, na hora que a polícia chegar, ela passa pelo meio das pernas dos "meganha" e ninguém vai conseguir pegar ela.

Minha mãe sempre me deixava ir ao bicheiro, que ficava escondido nos fundos do único açougue do bairro, e eu ia, toda importante, torcendo para a polícia aparecer de verdade e eu conseguir fazer tudo o que o vovô falava.
Bem, a polícia nunca apareceu e eu, pequenininha, aprendi a chegar no açougue, jogar no bicho, fazer o pedido certo para o açougueiro me mandar para o fundo da loja e essas coisas que os meliantes fazem. Por isso entendo quando vários pensamentos desonestos passam pela minha cabeça. Culpa do vovô, o homem que mais amei neste mundo.
Lembro-me de que uma certa ocasião eu falei:
-Vovô tá com meleca no nariiiizzz!!!
Papai (que era como o chamávamos na época, em sua ausência) quis me bater, mas vovô não deixou, ele disse:
- Se ela disse que estou com meleca é porque estou com meleca e ninguém vai bater nela.
Eu fazia as minhas besteiras e me agarrava às pernas do vovô, em que ninguém podia me tocar, eram a minha muralha, minha fortaleza.
Era bom demais ter vovô em minha vida, tanto que ainda me lembro da única vez em que ele brigou comigo. Foi por uma bobeira, mas me marcou para sempre. Outra hora eu conto essa lembrança.

domingo, 2 de outubro de 2011

Segunda lembrança - O açúcar oculto

Já é quase meia-noite, 23:35 de 02/10/2011, para ser mais exata. Estou querendo ver Dr. Hollyood (não sei se é assim que se escreve. Aguarde um minutinho, vou verificar, tinha faltado um w é Hollywood). Pobrema, como dizem os pobres, adoro ver programas com cirurgias, quaisquer que sejam: cosméticas, reparadoras, de rins, fígados, seja lá quais forem, até de fimose, se passassem na TV.

Mas, o assunto aqui é uma das minhas lembranças, tenho várias hoje gostaria de escrever sobre outra, mais leve, mas vou contar a preferida de minha mãe, que como já disse, morreu há 9 meses. Que saudade, já estive longe dela muito mais tempo que isto, mas sabia que ia vê-la, agora sabendo que a falta é irreversível, a situação é insuportável. Tenho vontade de morrer e ir me encontrar com ela, minha irmã mais velha diz que irei para o outro lado, mas como o mundo gira "e a lusitana roda" espero que na hora em que eu descer o meu lado esteja bem na reta em que ela estará (a gente que é herege [como dizia mamãe] não leva nada a sério).
Vou para o túmulo com muitos segredos, não os colocarei todos aqui, não interessam a mais ninguém a não ser a mim, aliás nem a mim, quero que eles sejam apagados quando começarem os eletrochoques, pois sinto que estou piorando.
Minha lembrança de hoje é essa:

"Não me lembro o ano, tinha oito anos, poderia ser em 1961 ou início de 1962, não sei. Só sei que faltava açúcar. Imagine, naquele tempo nunca tínhamos falado em adoçantes, mel era coisa de rico e nós os pobres não podíamos viver sem açúcar. Minha mãe, já desesperada, com não sei quantos bebês para alimentar, me deu uma certa quantia e disse: - Nem, vai procurar açúcar e traz dez quilos.
Gente, eu tinha só oito anos, que responsabilidade, nenhum adulto conseguia comprar um quilinho sequer de açúcar e eu tinha que voltar para casa com dez.
Só que ao contrário do que se dizia naquela época, eu, apesar de ser criança, pensava e ouvia. Ouvia os adultos comentando que estavam escondendo o açúcar para aumentar o preço, e que existia muito açúcar nos mercados, só que eles não queriam vender.
Lá fui eu para um mercado chamado "Dragão", que ficava em frente à padaria de cima (tínhamos duas no bairro a de baixo e a de cima, depois me lembrem de contar a história do lobisomem que trabalhava na de cima).
Chegando ao "Dragão, o vendedor, que tb era o dono, foi logo me expulsando, dizendo que ali não havia açúcar. Eu fingi que estava saindo do mercado e bruscamente passei por debaixo do balcão e entrei no depósito do mesmo, lá descobri que as prateleiras estavam abarrotadas de açúcar. Não prestou, falei ao cara que havia corrido atrás de mim, que se ele não me vendesse o açúcar eu contaria a todo mundo e haveria ali um quebra-quebra, que era muito frequente na época. O rapaz ficou desesperado, embrulhou dois sacos de 5 quilos de açúcar (um saco azul de papel) num jornal, equilibrou-os na minha cabeça, recebeu meu dinheiro e me pediu para não contar a ninguém o que eu havia visto. É claro que criança não tem palavra, caminhando para casa, com aquele pezão (aumentativo de peso, não de pé) na cabeça, encontrei um vizinho (seu Assis, marido da dona Luíza) que me perguntou o que eu carregava, eu disse que era açúcar e que no "Dragão" tinha muito. O rapaz de lá negou, seu Assis voltou para casa sem o açúcar e eu passei a ser a compradora de açúcar para a vizinhança, porque o mercado só vendia para mim, não foi nada legal, carregava um peso enorme e não ganhava nada por isso, talvez nem um muito obrigada."
Minha mãe lembrou desta história até seus últimos dias para contar a todos como eu era esperta, sentia o orgulho em sua voz e isso me deixava muito feliz.
Chega por hoje, amanhã, talvez, conte a história do vovô ou aquela historinha idiota que não me sai da cabeça porque é engraçada pra mim.
Bjks


sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Primeira lembrança - Abandonada?

Prometi que escreveria sobre a minha vida aqui, conforme indicação da minha psiquiatra, e só agora me deu vontade. Também estou com vontade de sair à rua, passar no banco, comprar umas coisinhas para o meu tricô, e ainda de dar uma passadinha na minha área de serviço e colocar a roupa branca que lavei na secadora, como vêem, vontade não me falta para nada (a não ser para lavar louça) só me falta coragem.
Bem, vamos lá, como tenho tomado tarja preta, o medo de muitas memória já terem ido para a terra do sem fim é grande, então começarei pela primeira que me vem à mente.


"1955 ou 1956 - Tinha eu de dois para três anos, creio eu, não tenho ninguém para confirmar, quando me via aos prantos, juntamente com minha irmã um ano mais velha, sentada numa tampa de fossa séptica (é, naquele tempo as casas possuíam isso), numa altura em que não conseguíamos descer. Só me lembro do nosso pranto sofrido e coletivo e dos nossos pezinhos balançando. O porque de tanto choro? Minha mãe e minha irmã mais velha estavam na casa da vizinha, dois quintais depois, e as avistávamos pelas cercas das casas."

Não sei como isso acabou, minha mãe deve ter voltado, enxugado nossos narizes e olhos e tudo deve ter voltado ao normal, mas essa imagem nunca me saiu da cabeça, creio que, como disse uma psicóloga que frequentei, foi a minha primeira sensação de abandono.
Por hoje chega. Já são 16:07, estou assistindo a um jornal com o meu amado Sidney Resende, mas terei que abandoná-lo para tomar um banho e cuidar da vida. Que dó!
Um beijo para quem é de beijo e um abraço para quem é de abraço. Aperto de mão não, ando com muito nojo de tocar nas mão das pessoas e quando elas vêm me cumprimentar vou logo abraçando, assim encosto nas roupas, não na pele (T.O.C. se instalando!!!!!!!)

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Nada pra fazer

Oi,
Virei (do verbo vir) aqui com mais frequência. Na última vez em que estive na minha psiquiatra, pedi a ela para fazer tratamento com eletrochoques, pois eles provocam algum curto-circuito, que provocam novas sinapses que, por sua vez, podem me libertar da depressão, pelo menos temporariamente.
Ela me falou que não é bem assim e que eu não teria indicação para esse tipo de tratamento. Então tá - disse-lhe eu - por que parece que já nasci deprimida, estou assim há muitos anos, cheia de dor e tristeza.
Ela me disse: - parece-me que vc tem fibromialgia.
- Eu tenho diagnóstico de fibromialgia, há mais de 15 anos, mas a minha médica me disse que nunca diagnosticou essa doença, pois ela não existe, é apenas psicossomática.
- É psicossomática, mas existe.
E agora, quem tem razão, minha médica ou minha psiquiatra? Fibromialgia é doença ou não? Existe ou não? Eu a tenho ou não?
Bem, meu cérebro deu tilt nesse momento do diálogo e como agora minha configuração é mínima, deixei esse papo pra lá e voltei à conversa sobre o tratamento com eletrochoques. Falei:
- Doutoura, eu sei que a nossa memória vai pro brejo. Eu não me importo. Uma vez quando contei a uma psicóloga minha primeira lembrança, ela comentou:
- Sua primeira lembrança é tão triste...que sensação de abandono...
Eu fiquei plasma (sei que é pasma, é que gosto de fazer umas gracinhas de vez em quando, mesmo quando o assunto é sério), essa lembrança nunca me abandona e até hoje, 54, 55 anos depois, ainda está tão vívida! Mentira, eu acho que nenhuma lembrança me abandona. Minha irmã mais velha diz que eu e minha outra irmã temos memória de elefante, não esquecemos de nada. É curioso ela dizer isso, pois já deixei até de viajar para o Caribe de graça com direito a acompanhante, porque perdi o prazo por puro esquecimento.
Confuso, né? Xá prá lá. Eu também não entendo.
Aí, minha psiquiatra me disse para anotar todas as minhas lembranças. Vai que um dia eu comece a esquecê-las?
Achei legal a ideia, já que ultimamente tenho tentado acessar o HD do meu cérebro e creio que ele ou está cheio demais ou quase vazio, porque não tenho mais acesso a muitos arquivos de que necessito, nos momentos em que mais preciso deles.
Vou começar hoje a escrever minhas lembranças e será aqui neste blog, já que ninguém o lê não estarei explanando demais minha vida e se alguém o ler, azar, quem mandou publicar???
Elas não estarão em ordem cronológica, estarão em ordem de acessibilidade (acessar, acesso, acessibilidade, em outras épocas eu teria vários sinônimos na cabeça, agora...., bem o importante é que "tô nem aí").

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

continuo cansada - 2

Desde que escrevi pela última vez, perdi a minha mãe. Como pode um pessoa estar boazinha e sorridente num mês, no outro já estar desenganada e no mesmo ano morrer? Não consigo me conformar. Já faz mais de 8 meses que ela se foi. Foi definhando, definhando, definhando, até o suspiro final. Seu sonho, mesmo quando não conseguia mais se virar na cama, era se levantar e coar o café para a família. Como aquilo me doía, uma coisa tão prosaica...
Uma vez lhe perguntei se tinha esperança de sair daquela cama. Ela revirou os olhos para o alto e me disse que só "Aquele" é quem sabia.
Me revoltei por dentro. "Aquele" não sabia de nada, não sabia nem que sua mais devotada serva estava ali sofrendo com dores e escaras. Mas, ela queria acreditar e eu queria acreditar também. Barganhei muito com ele: Se minha mãe ficasse boa eu voltaria para a igreja, seria a crente mais fiel, mais animada, mais tudo...
É claro que nada disso aconteceu e eu continuo aqui, herege, como diria minha mãe. Ateia, como me denomino.
Nunca mais acreditei em nada: fantasmas, diabos, deuses, espíritos. Nada disso existe, somos apenas animais com mania de grandeza, querendo ser melhores que os outros e, por isso, sofrendo mais que eles.
Hoje mesmo vi uma amiga no supermercado, em outra ocasião correria para abraçá-la, hoje fingi que não a vi. Lembrei-me que liguei para ela, após a morte de minha mãe, pois achava que ela estava com algum problema, já que não conseguia acreditar que uma amiga que sabe que sua mãe está mal e não lhe pede notícia está levando uma vida normal, nada disso, ela estava bem. Só não ligava para o que eu estava passando. Na mesma noite me convidou para sair. Conversamos, evitando o assunto mãe, e adeus, até nunca mais. Quando você sair da fossa me procure, não quero saber da sua tristeza, da sua depressão...
Só minha psiquiatra me aguenta, não tenho forças nem vontade de sair de casa. Sento-me sempre do mesmo lado do sofá e fico jogando no computador ou fazendo tricô. Estou triste demais. Não entendo porque minha mãe sofreu tanto para morrer. Não entendo a vida. Acho que só serei feliz de novo quando estiver numa urna, cremada.
A vida não tem nenhum sentido. Quero a morte. Dormir para sempre e sonhar que sou feliz.