O título é verdadeiro, mas, antes de contar essa história, deixe-me dizer que hoje estou mal. Uma gripe danada me foi passada por minha cunhada. A cabeça está prestes a explodir. Uma coriza medonha me consome. Filho e sobrinho fazendo malcriações. Enfim, saco cheio.
Vamos lá:
1960 - Tinha 7 anos e estava no primeiro ano, numa escola pública de onde eu morava. Essa escola não existe mais, foi demolida para que alargassem a linha do trem. Naquela época tínhamos que comprar tudo, não havia governo nos dando merenda nem material escolar, então, na maioria das vezes não tínhamos merenda ou quando muito, levávamos pão com açúcar. Quando o caderno acabava, os meus sempre sujos e com muitas orelhas, escrevíamos em papel de pão. Nossa borracha era miolo de pão fresco. Quando ficava velho, esfarinhava e não servia mais. Nossa cola era feita de arroz ou macarrão cozidos. No uniforme só duas letrinhas EP. Elas diziam tudo.
Bem, em outubro a escola resolveu nos levar para a Quinta da Boa Vista. Lá fomos nós, toda a escola, do primeiro ao quarto ano. Criança pra caramba. Nossa primeira visita foi ao Museu. Ficamos encantadas com tudo o que víamos. Eu e minha irmã mais velha, que na época tinha uns dez anos resolvemos ir a uma janela do museu para ficar admirando a vista. Quando demos por nós, todo mundo tinha saído da sala onde estávamos. Nos vimos perdidas.
Vagamos pelo museu, perguntando onde ficava a saída. Todos falavam: - É lá perto do elefante. Mas, que elefante? Não conseguíamos encontrar nenhum elefante. Finalmente, quando saímos do museu, nos vimos na rua, chorando como duas condenadas. O guarda de trânsito nos parou, dissemos que estávamos perdidas e ele nos levou para a delegacia mais próxima.
Passamos o dia lá. Na hora do almoço chegou comida, ainda me lembro do cardápio: feijão, arroz e carne seca com abóbora. O delegado deu uma marmita para cada uma de nós e disse que se não comêssemos tudo, ele nos poria nas celas.
Ficamos horrorizadas, passamos em frente às celas e os presos nos pediam a nossa comida. Os braços quase nos tocando.
Arranjamos um lugar para sentar e comemos aquela comida horrível: o arroz estava duro e o resto sem gosto. Depois, lavamos as marmitas e ficamos quietinhas, ali, sentadas, imaginando que ficaríamos presas até virarmos adultas. Não podíamos mais chorar, a polícia tinha proibido.
Lá pelas tantas, o guarda que tinha nos deixado lá passou para saber se alguém havia nos procurado. É claro que não.
Ele perguntou onde morávamos, quando falamos o bairro ele disse:
- Então, pode deixar que eu deixo elas em casa, moro em Nilópolis e sei onde fica esse bairro de São João.
Ficamos felicíssimas e saímos de lá de mão dadas com o guarda.
Quando estávamos na estação para pegar o trem, eis que surge toda a escola, para tomar o mesmo trem. No instante em que me viu, minha professora veio em minha direção com a mão levantada para me bater, indagando onde estivéramos até aquele momento. O guarda não permitiu que ela me tocasse e eu fiquei quietinha escondida atrás das pernas dele (fazendo caretas para todos os colegas), vai que aquela megera me pegasse.
O rapaz nos deixou em casa, contou a história do acontecido para a minha mãe, ela o agradeceu por sua bondade e ele se foi.
No dia seguinte, dona Janete, esse era o nome da minha professora, perguntou se minha mãe tinha me dado uma surra.
Disse-lhe, com meu habitual atrevimento:
- Ela não é ruim como você.
Então levei a surra e ainda fui ficar de castigo atrás do quadro - que ficava sobre um tripé - do qual eu era uma cliente contumaz. Aliás, eu adorava ficar de castigo atrás do quadro, porque eu estendia a mão por baixo dele, pegava alguns pedaços de giz e lá ficava o restante da aula, escrevendo.
A megera da dona Janete só parou de me colocar de castigo atrás do quadro no dia em que eu o derrubei em cima dela (foi sem querer, eu juro), a partir de então, as surras se intensificaram e eu passei a fugir da escola todos os dias.
Mas, isso já é outra história...