Uma vez lhe perguntei se tinha esperança de sair daquela cama. Ela revirou os olhos para o alto e me disse que só "Aquele" é quem sabia.
Me revoltei por dentro. "Aquele" não sabia de nada, não sabia nem que sua mais devotada serva estava ali sofrendo com dores e escaras. Mas, ela queria acreditar e eu queria acreditar também. Barganhei muito com ele: Se minha mãe ficasse boa eu voltaria para a igreja, seria a crente mais fiel, mais animada, mais tudo...
É claro que nada disso aconteceu e eu continuo aqui, herege, como diria minha mãe. Ateia, como me denomino.
Nunca mais acreditei em nada: fantasmas, diabos, deuses, espíritos. Nada disso existe, somos apenas animais com mania de grandeza, querendo ser melhores que os outros e, por isso, sofrendo mais que eles.
Hoje mesmo vi uma amiga no supermercado, em outra ocasião correria para abraçá-la, hoje fingi que não a vi. Lembrei-me que liguei para ela, após a morte de minha mãe, pois achava que ela estava com algum problema, já que não conseguia acreditar que uma amiga que sabe que sua mãe está mal e não lhe pede notícia está levando uma vida normal, nada disso, ela estava bem. Só não ligava para o que eu estava passando. Na mesma noite me convidou para sair. Conversamos, evitando o assunto mãe, e adeus, até nunca mais. Quando você sair da fossa me procure, não quero saber da sua tristeza, da sua depressão...
Só minha psiquiatra me aguenta, não tenho forças nem vontade de sair de casa. Sento-me sempre do mesmo lado do sofá e fico jogando no computador ou fazendo tricô. Estou triste demais. Não entendo porque minha mãe sofreu tanto para morrer. Não entendo a vida. Acho que só serei feliz de novo quando estiver numa urna, cremada.
A vida não tem nenhum sentido. Quero a morte. Dormir para sempre e sonhar que sou feliz.