quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Terceira lembrança - Vovô malvado ou temerário?

Sei que tinha uns cinco, seis ou sete anos (não me lembro direito, vovô morreu quando eu tinha sete anos), só sei que naquela época a polícia perseguia, de verdade, quem jogasse ou apontasse jogo-de-bicho. Vovô, é claro, como já tinha mais de sessenta, tinha tb muito medo de ser preso, então o que o velhinho fazia? Pedia à sua netinha, eu, nessa tenra idade que fosse fazer a fezinha para ele. Minha mãe ficava desesperada.
- Mas vovô (é, ela tb o chamava assim, embora ele fosse seu sogro) - e se a polícia aparecer? Vão prender a Nem (esse era o meu apelido, aliás, é, na família). Ela é só uma criança, vão prender a minha filha.
- Fica fria, Maria (é claro que o vovô não falava assim, é que não me lembro como ele falava e já estou atualizando sua linguagem), a Nem é esperta, na hora que a polícia chegar, ela passa pelo meio das pernas dos "meganha" e ninguém vai conseguir pegar ela.

Minha mãe sempre me deixava ir ao bicheiro, que ficava escondido nos fundos do único açougue do bairro, e eu ia, toda importante, torcendo para a polícia aparecer de verdade e eu conseguir fazer tudo o que o vovô falava.
Bem, a polícia nunca apareceu e eu, pequenininha, aprendi a chegar no açougue, jogar no bicho, fazer o pedido certo para o açougueiro me mandar para o fundo da loja e essas coisas que os meliantes fazem. Por isso entendo quando vários pensamentos desonestos passam pela minha cabeça. Culpa do vovô, o homem que mais amei neste mundo.
Lembro-me de que uma certa ocasião eu falei:
-Vovô tá com meleca no nariiiizzz!!!
Papai (que era como o chamávamos na época, em sua ausência) quis me bater, mas vovô não deixou, ele disse:
- Se ela disse que estou com meleca é porque estou com meleca e ninguém vai bater nela.
Eu fazia as minhas besteiras e me agarrava às pernas do vovô, em que ninguém podia me tocar, eram a minha muralha, minha fortaleza.
Era bom demais ter vovô em minha vida, tanto que ainda me lembro da única vez em que ele brigou comigo. Foi por uma bobeira, mas me marcou para sempre. Outra hora eu conto essa lembrança.

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