Mas, o assunto aqui é uma das minhas lembranças, tenho várias hoje gostaria de escrever sobre outra, mais leve, mas vou contar a preferida de minha mãe, que como já disse, morreu há 9 meses. Que saudade, já estive longe dela muito mais tempo que isto, mas sabia que ia vê-la, agora sabendo que a falta é irreversível, a situação é insuportável. Tenho vontade de morrer e ir me encontrar com ela, minha irmã mais velha diz que irei para o outro lado, mas como o mundo gira "e a lusitana roda" espero que na hora em que eu descer o meu lado esteja bem na reta em que ela estará (a gente que é herege [como dizia mamãe] não leva nada a sério).
Vou para o túmulo com muitos segredos, não os colocarei todos aqui, não interessam a mais ninguém a não ser a mim, aliás nem a mim, quero que eles sejam apagados quando começarem os eletrochoques, pois sinto que estou piorando.
Minha lembrança de hoje é essa:
"Não me lembro o ano, tinha oito anos, poderia ser em 1961 ou início de 1962, não sei. Só sei que faltava açúcar. Imagine, naquele tempo nunca tínhamos falado em adoçantes, mel era coisa de rico e nós os pobres não podíamos viver sem açúcar. Minha mãe, já desesperada, com não sei quantos bebês para alimentar, me deu uma certa quantia e disse: - Nem, vai procurar açúcar e traz dez quilos.
Gente, eu tinha só oito anos, que responsabilidade, nenhum adulto conseguia comprar um quilinho sequer de açúcar e eu tinha que voltar para casa com dez.
Só que ao contrário do que se dizia naquela época, eu, apesar de ser criança, pensava e ouvia. Ouvia os adultos comentando que estavam escondendo o açúcar para aumentar o preço, e que existia muito açúcar nos mercados, só que eles não queriam vender.
Lá fui eu para um mercado chamado "Dragão", que ficava em frente à padaria de cima (tínhamos duas no bairro a de baixo e a de cima, depois me lembrem de contar a história do lobisomem que trabalhava na de cima).
Chegando ao "Dragão, o vendedor, que tb era o dono, foi logo me expulsando, dizendo que ali não havia açúcar. Eu fingi que estava saindo do mercado e bruscamente passei por debaixo do balcão e entrei no depósito do mesmo, lá descobri que as prateleiras estavam abarrotadas de açúcar. Não prestou, falei ao cara que havia corrido atrás de mim, que se ele não me vendesse o açúcar eu contaria a todo mundo e haveria ali um quebra-quebra, que era muito frequente na época. O rapaz ficou desesperado, embrulhou dois sacos de 5 quilos de açúcar (um saco azul de papel) num jornal, equilibrou-os na minha cabeça, recebeu meu dinheiro e me pediu para não contar a ninguém o que eu havia visto. É claro que criança não tem palavra, caminhando para casa, com aquele pezão (aumentativo de peso, não de pé) na cabeça, encontrei um vizinho (seu Assis, marido da dona Luíza) que me perguntou o que eu carregava, eu disse que era açúcar e que no "Dragão" tinha muito. O rapaz de lá negou, seu Assis voltou para casa sem o açúcar e eu passei a ser a compradora de açúcar para a vizinhança, porque o mercado só vendia para mim, não foi nada legal, carregava um peso enorme e não ganhava nada por isso, talvez nem um muito obrigada."
Minha mãe lembrou desta história até seus últimos dias para contar a todos como eu era esperta, sentia o orgulho em sua voz e isso me deixava muito feliz.
Chega por hoje, amanhã, talvez, conte a história do vovô ou aquela historinha idiota que não me sai da cabeça porque é engraçada pra mim.
Bjks
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