quarta-feira, 23 de julho de 2014

O canário mimado

É gente, comprei um canário. Ele é meio cor de abóbora, não é amarelinho. Lindo. Pois é, comprei-o em novembro do ano passado e desde então ele vem me fazendo menos triste.
Quando estou tocando teclado (não falei pra vocês, mas no ano passado entrei para um curso de teclado na FAETEC) ele fica trinando. Formamos um belo e harmonioso par.
Só que o bonito é mimadinho. Come jiló como se bebesse água, mas, não sei como, ele derruba o jiló e fica "gritando" até a gente o colocar de novo no lugar. Como é que ele sabe que a gente entende quando está reclamando? Mimado. Isso é o que ele é. Morro de rir por dentro (só consigo rir por dentro mesmo, dificilmente dou uma gargalhada, a não ser quando me reúno com a minha família que é pródiga em fazer palhaçadas).
Antes de comprar o Justin Timberlake (em homenagem ao cantor/ator que esteve aqui no Rock in Rio, na mesma época) eu estava cogitando arranjar um cachorro, porém que a obra que ia fazer na minha copa/cozinha/área e banheiro de serviço não saiu por falta de grana, então...
O pior é que a arquiteta que contratei para o projeto tinha conseguido até pôr um "pet space", para que o cão não tivesse que passar pela cozinha. Fiquei apaixonada pelo projeto, só que a vida deu uma volta indesejada e não tenho dinheiro nem para consertar o registro de água da cozinha. Saco. Odeio ser pobre. Falo para as pessoas que uns 500 mil dólares resolveriam a minha vida, elas riem pensando que estou brincando, mas é verdade. Preciso dessa grana.

quarta-feira, 19 de junho de 2013



Sou preta, e daí?



Farei uma revelação agora: eu sou preta. Não, não sou negra como quase todo mundo se declara hoje em dia, mesmo quem tem a pele clara e o cabelo “bom”. Aliás, nunca entendi essa história de cabelo bom. O meu nunca agrediu ninguém, nunca matou, nunca roubou, dá o maior lucro pras cabeleireiras e é considerado ruim. Imagina só, um cabelo responsável pelo aumento do PIB e pelo maior número de empregos, ser chamado de ruim. Bem deixa pra lá porque não estou escrevendo por isso.
O meu problema é outro, ou melhor, é o olhar dos outros sobre mim. Tenho quase sessenta anos de pretura e ainda me incomodo com a maneira como sou tratada em alguns lugares. Hoje mesmo estava no hortifruti, paguei uma tortinha no caixa, me dirigi ao balcão, pedi a torta ao rapaz que estava ajeitando a placa da tortinha que eu queria, ele se voltou para um senhor branco que chegou depois de mim, perguntou o que o sujeito desejava e o atendeu. Então, veio uma mocinha e perguntou ao mesmo senhor se já havia sido atendido, e quanto a mim? Será que estava usando a capa da invisibilidade e não havia me dado conta? Só após atender o senhor, o rapaz veio me perguntar o que eu queria. Pedi. Ele me mandou tirar a fichinha (essa nossa mania de colocar tudo no diminutivo, achando que é mais carinhoso) no caixa, informei-lhe que a tortinha já estava paga e mostrei-lhe o cupom, afinal, quem vai acreditar numa preta velha?
Aliás, sou vítima nesse hortifruti. Certa vez um funcionário me atropelou com um daqueles carros de carregar mercadoria, pesado pra caramba, pediu desculpa, como se na verdade a culpa fosse minha por não perceber que ele vinha atrás de mim, e seguiu seu caminho. Nem me perguntou se eu havia me machucado. Claro que eu estava machucada, além da dor quase insuportável, meu pé sangrava pra dedéu. Dirigi-me à caixa e, depois que paguei, perguntei-lhe se ela me arranjaria um band-aid para colocar na ferida, ela chamou o gerente que disse logo que não tinham.
Aí, eu fiz aquela cara de idiota e falei:
- Pois é, o rapaz da loja me atropelou com o carrinho. Bem, quase que  imediatamente surgiu o band-aid e um pedido de desculpas, talvez mais sincero, duvido, mas o medo de um processo...
De outra vez, fui comprar um salpicão na mesma loja, o rapaz que deveria me atender estava cortando algum frio, sem olhar para o balcão. Eu o chamei diversas vezes, juro, só não gritei porque sou muito educada. Perguntei ao rapaz ao lado se ele poderia me atender. Claro que não, só o rapaz ocupado poderia, no entanto ele não se mexeu para chamar o tal rapaz. Muito irritada, procurei o responsável pela loja e ele me disse que isso não me aconteceria mais, sei não.
Não posso só falar desse hortifruti, que continuo frequentando apesar de toda humilhação que me impõe. Uma vez na Viena do Rio Sul, havia um senhor e um meninote na minha frente aguardando mesa, depois, vínhamos eu, mais uma adulta e 4 adolescentes, ou seja, seis pessoas. A mocinha perguntou ao senhor quantos lugares ele queria, passou por mim e perguntou à família atrás da gente a mesma coisa. Quando ela voltou, eu lhe perguntei se preto era invisível. Ela me disse:
-Desculpe, pensei que vocês estivessem com eles. Ele pediu cinco lugares. 
Então eu disse:
- Alguém andou faltando às aulas de matemática (porque ela tinha achado que dois mais seis daria cinco).
Ela fez aquela cara de não entendi e não gostei, registrou o meu pedido de mesa e se retirou. Minha cunhada cismou que tínhamos que reclamar na gerência e eu deixei pra lá, sei que não adianta nada mesmo. Quem vai se importar com um bando de neguinhos? Mesmo assim, ironicamente perguntei ao gerente se ele estava me vendo. Sem entender nada ele respondeu que sim e eu lhe disse:
- Que bom que só a sua funcionária não enxerga crioulos.
Ficou tudo por isso mesmo, até a hora em que pedimos a taça Viena, que veio sem a salada de frutas. A garçonete me falou que tínhamos que ter reclamado antes de comer. Como, se não dá pra ver se tem frutas com o sorvete em volta? Só havia banana e uva e o buffet estava cheio de frutas, então nem desculpas tinham, a não ser o fato de achar que aquela gente preta nunca tinha comido uma taça Viena e que, portanto, não saberia como era feita.
Bem, eu poderia ficar aqui durante horas falando de todo o preconceito que sofro ou sofri e até das pessoas que me acham uma neguinha metida. Uma neguinha que passa por tudo o que passo tem que ser metida mesmo, se eu me rebaixar, aí é que montam em cima. Reclamo mesmo.
Nunca processei, porque nesse país se alguém me chamar de macaca (como já fizeram várias vezes), o delegado vai registrar como injúria racial e não como racismo e não vou perder meu tempo com gente dessa laia, afinal, um tipo de gente que faz isso é muito mais infeliz do que eu, porque se pensa superior, mas, na verdade, é um nada que tem as entranhas iguais às minhas e se “acha” porque tem a pele mais clarinha.
Pelo menos eu tenho uma vantagem: já nasci com filtro solar, eles não.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Sonho dentro de sonho

Estou com dor até na alma, ou melhor, meu corpo inteiro está dolorido. Tenho uma porção de coisas para resolver, a descarga do segundo banheiro quebrou e, como só tenho dois banheiros e a descarga do outro está quebrada, estou sem descarga em casa, jogando água no vaso com um balde, isso me desgasta.
Comprei no ano passado aquela descarga ecológica da Hidra, com dois tipos de vazão, pelo visto ela não é nada resistente, acho que mal fez um ano. A anterior, durou vinte anos sem problemas. Fui me meter a preservar a natureza e o meu bolso vai para o brejo, pois aqui em Botafogo, qualquer serviço de 5 minutinhos não sai por menos de trinta reais, fora as peças que temos que comprar.
Estou sem ânimo para escrever, mas, mesmo assim contarei o que lembro de meu sonho desta noite.

Sonhei que havia sonhado com minha mãe e meus irmãos mortos. No sonho nós víamos o meu sonho numa espécie de tablet. Estávamos todos ali, inclusive os mortos, analisando o sonho, quando meu sobrinho Daniel disse que eles deviam estar com saudades de mim.
Eu falei: - Não, o sonho é meu, então eu é que estou com saudade deles.
Minha mãe disse: - Você sente a minha falta. Quer que eu vá a sua casa?
Respondi que sim. Do resto do sonho não me lembro.
Não acordei triste, apenas resignada. Estou mais triste agora que estou escrevendo. O nó na garganta, os olhos marejados. Muita saudade do meu povo que partiu.



quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Estou bem

Hoje estou bem. Peço desculpas a quem só gosta de ler morbidades, mas estou bem.
Não me lembro com o que sonhei (coisa incrível, sempre lembro dos meus sonhos, com detalhes). Minha mãe, numa época da vida, não se lembrava de seus sonhos e dizia que não estava mais sonhando. Eu lhe disse:
- Mãe, você está sonhando sim, só não se lembra. Todo mundo sonha.
Não sei se ela ficou mais triste ou mais alegre com a notícia, mas me disse:
- Eu vou orar e pedir a Deus para devolver os meus sonhos ou a minha memória - não foram exatamente essas palavras, mas foi esse o sentido.
Então, várias vezes eu a via orando. Um dia ela veio me contar que tinha voltado a sonhar e estava muito feliz.
Eu sei que sonhei a noite toda, só não me lembro, isso mostra que não foram sonhos intensos, como têm sido até agora.
Hoje, estava na cama vendo o jornal do meio-dia, quando o telefone tocou. Vi-me forçada a me levantar para atendê-lo, é claro que já tinham desligado. Aí arrumei a cama, igual ao meu nariz, e quando fui abrir as cortinas percebi que já estavam abertas. Fiquei pensando:
- Será que eu dormi com as cortinas abertas?
Não, lembro-me muito bem de tê-las fechado.
Então perguntei aos meus mortos:
- Foram vocês que abriram as cortinas?
Eles fingiram que não ouviram, ficaram "olhando pra ontem" disfarçando. Aí concluí que eu devo tê-las aberto e esquecido.
Tomei a benção à minha avó, à minha tia, à minha mãe, dei um olá para o Donia e fiquei ali sentindo uma vibração de felicidade vindo em direção ao meu coração.
Foi bom.
Conversei, depois, com duas irmãs, um irmão e com alguns sobrinhos (as), por telefone, e agora estou bem, só esperando terminar o Estúdio I, para tomar banho e ir ao mercado e à loteria (não necessariamente nessa ordem).
Intão, inté.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Quinta lembrança e muita dor na alma

Oi,
Estou meio pra baixo hoje, dirá você:
- Que novidade!!!
É mesmo, tenho que sair dessa, mas não sei como. Tem hora em que eu fico toda animadinha para fazer alguma coisa, mas aí vou desanimando, desanimando, no final, não faço.
Estava com vontade de sair e comprar sopa. Terei que mudar de roupa e isso já me desanima. Pelo menos hoje estou lavando roupa (é a máquina que está lavando, bem entendido) mas, ao menos, tive ânimo para colocar as roupas lá dentro. Agora, a porqueira do amaciante acabou e não estou a fim de ir ao supermercado, que fica em frente à minha casa, porque está sempre cheio.
Esta noite tive um sonho estranho. Sonhei que estava lá em Tomazinho e o pastor Ivaldo estava orando para minha mãe ressuscitar. Ela saiu do túmulo (no meu sonho ela estava enterrada num túmulo lá mesmo no quintal, na verdade ela está numa gaveta, num cemitério), veio caminhando para nós. Imagine você nossa felicidade. Minha mãe viva, novamente. O velho (meu pai, que morreu em 1990) vinha perguntar como aquilo havia acontecido e nós explicávamos, alegres. Mas, minha mãe não estava feliz, ela dizia que estava bem melhor morta, não sentia dor, não estava em lugar nenhum, não tinha consciência de nada, era como se estivesse dormindo. Fiquei triste por mim e por ela. Por mim, por saber que ela preferia a morte, por ela, por tê-la trazido de volta para sofrer novamente.
Depois disso, acordei. Triste.
Tinha posto o relógio para despertar às 11 da manhã porque não queria passar o dia inteiro dormindo como ontem, mas acabei ficando na cama até 1 hora da tarde e levantei sem vontade e sem motivo.
Depois das 4 resolvi tomar banho e procurar o termo de garantia da câmera da Mima, que não sei onde está. A última pessoa que disse que o viu foi a Jane, daí concluo que ele pode estar em qualquer lugar da casa, menos onde deveria. Terei que revirar quartos e sala.
No meu quarto procurei hoje, achei vária fotos de mortos que amo e amei. Saí colocando-os sobre a escrivaninha: minha avó Sunegundes (na verdade o nome dela era Maria da Conceição) que não cheguei a conhecer, minha tia Deó, meu irmão Adonias, ... só não coloquei foto do velho porque acho que ele não gostava muito de mim. Ainda vou colocar a do Antônio e a do vovô. Já que os vivos me abandonaram, viverei cercada pelos mortos. Deu certo para a minha mãe. Ela ficou assim e tempos depois morreu. Pronto. Está feliz. Não quer mais voltar.
Me deu vontade de chorar, meus olhos estão marejados.
Vou contar então mais uma lembrança que tive hoje:
Eu tinha 4 anos, o Adonias tinha acabado de nascer. Minha mãe estava trocando a fralda dele e deu falta do alfinete. Procurou-o, perguntou, depois ao ver-me muito quietinha com as mãos para trás, pediu-me para ver o que eu tinha nelas. Eu estava segurando o alfinete aberto. Ela quis saber o que eu iria fazer com ele. Eu respondi:
- Vou infiar no imbigo dele. É mais um que veio comer a minha comida!
Viram? Psicopata. Só me preocupava com a comida que vivia faltando e aqueles bebês sempre chegando famintos. Depois, o Donia (como o chamávamos) virou um grande fã meu. Fui quase uma mãe para ele. E, depois do da minha mãe, foi o falecimento que mais me doeu até hoje.
Inté.


quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Oi,
Fui a minha psiquiatra, ela sabe exatamente o que e como dizer as coisas. Explico: combinei com uma amiga de viajar com ela para a terra dela e lá ficar pelo menos uns 15 dias. Ela me disse que não se importava se eu tivesse que parar dez vezes por dia para ir ao banheiro. Ela me ligou para ver preços de passagens Rio-Congonhas. Os preços estavam bons, combinei de fechar o mais depressa possível e surtei. Claro, que só surtei na madrugada. Tive milhões de pesadelos, enjôos, diarréias e afins. O café da manhã não passava pela garganta, as mãos tremiam como vara verde. Eu estava mal. ainda bem que hoje tinha consulta com a dra. L. às 14:20, conforme o papel que ela me deu. Levantei-me às 13, muito cansada, tomei banho, tomei café, escovei os dentes e fui. Fiquei um tempão no ponto do ônibus, vendo a hora passar. Dá para ir a pé, são só dois pontos, mas tenho medo. Finalmente, quando o ônibus chegou, vi que estava atrasadona, andei rápido pelas calçadas, subi ao 11º primeiro andar, toquei a campanhinha e entrei. A ante-sala estava vazia e ela não veio me atender. Fiquei olhando para o trânsito na rua, com a sensação de estar sendo observada por câmeras escondidas. Queria pegar uma revista, mas ao mesmo tempo ficava imaginando a dra. assassinada dentro do consultório e eu ali esperando. Seria a primeira suspeita se fosse embora, pelo menos deveria dar o alarme do corpo. Como não carrego bolsa, não tinha onde esconder uma arma.
Nisso a dra. abriu a porta, despachou a cliente anterior e me chamou, Contei-lhe todas as minhas aflições. O mal que havia passado, o medo de viajar e passar o primeiro aniversário de morte de minha mãe num lugar estranho. Incomodar pessoas que mal me conhecem com a minha dor...
Ela me perguntou se eu queria ir, disse-lhe que não, mas não tinha coragem de contar para a minha amiga, afinal quando precisei ela foi a número um a me amparar.
Então a dra. me disse para ser sincera com ela, que ela iria me entender, me disse para passar o aniversário de morte de minha mãe com a minha família, contando causos alegres sobre ela e fechando, assim, o luto.
Achei melhor. Cheguei liguei para a amiga que foi super compreensiva, "Santa Jú", e decidi quebrar minha promessa de não voltar à Baixada este ano. Preciso de minha família e não é hora de me afastar. Passarei o natal lá e o ano novo em casa, porque não resisto aos fogos de Copacabana, e vamos ver no que vai dar.
Quero ir ao cemitério conversar com a gaveta de minha mãe. Sei que ela não está mais lá, mas seu corpo está e isso me basta.
Chega por hoje, estou tomando Martini, já tomei o remédio pra dormir e meus olhos já estão cerrando.
Bye

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Chorando por dentro

Aqui eu posso dizer que estou triste, deprimida.
Quando alguém me vê assim, sempre me manda reagir, como se fosse simples. Não é não, gente. Depressão é uma tristeza que nunca passa, os remédios, como o próprio nome diz, só servem para remediar, no dia em que a gente não toma, lá vem ela com força total.
Se alguém me perguntasse qual foi o dia mais triste da minha vida, eu diria que foram todos, desde que minha mãe morreu. Até quando esse nó na garganta quando me lembrar dela? Até quando essa lágrima que vai para dentro e teima em sair pelo nariz ou então é engolida? Que dor! Quanta dor!
Vou lá tomar o antidepressivo e meio rivotril. Depois, vou assistir um filme. Que dor na minha alma!