Sou preta, e daí?
Farei uma revelação agora: eu sou
preta. Não, não sou negra como quase todo mundo se declara hoje em dia, mesmo
quem tem a pele clara e o cabelo “bom”. Aliás, nunca entendi essa história de
cabelo bom. O meu nunca agrediu ninguém, nunca matou, nunca roubou, dá o maior
lucro pras cabeleireiras e é considerado ruim. Imagina só, um cabelo
responsável pelo aumento do PIB e pelo maior número de empregos, ser chamado de
ruim. Bem deixa pra lá porque não estou escrevendo por isso.
O meu problema é outro, ou melhor, é
o olhar dos outros sobre mim. Tenho quase sessenta anos de pretura e ainda me
incomodo com a maneira como sou tratada em alguns lugares. Hoje mesmo estava no
hortifruti, paguei uma tortinha no caixa, me dirigi ao balcão, pedi a torta ao
rapaz que estava ajeitando a placa da tortinha que eu queria, ele se voltou
para um senhor branco que chegou depois de mim, perguntou o que o sujeito desejava
e o atendeu. Então, veio uma mocinha e perguntou ao mesmo senhor se já havia
sido atendido, e quanto a mim? Será que estava usando a capa da invisibilidade
e não havia me dado conta? Só após atender o senhor, o rapaz veio me perguntar
o que eu queria. Pedi. Ele me mandou tirar a fichinha (essa nossa mania de
colocar tudo no diminutivo, achando que é mais carinhoso) no caixa,
informei-lhe que a tortinha já estava paga e mostrei-lhe o cupom, afinal, quem
vai acreditar numa preta velha?
Aliás, sou vítima nesse hortifruti. Certa
vez um funcionário me atropelou com um daqueles carros de carregar mercadoria,
pesado pra caramba, pediu desculpa, como se na verdade a culpa fosse minha por
não perceber que ele vinha atrás de mim, e seguiu seu caminho. Nem me perguntou
se eu havia me machucado. Claro que eu estava machucada, além da dor quase
insuportável, meu pé sangrava pra dedéu. Dirigi-me à caixa e, depois que
paguei, perguntei-lhe se ela me arranjaria um band-aid para colocar na ferida,
ela chamou o gerente que disse logo que não tinham.
Aí, eu fiz aquela cara de idiota e
falei:
- Pois é, o rapaz da loja me
atropelou com o carrinho. Bem, quase que imediatamente surgiu o band-aid e um pedido de
desculpas, talvez mais sincero, duvido, mas o medo de um processo...
De outra vez, fui comprar um salpicão
na mesma loja, o rapaz que deveria me atender estava cortando algum frio, sem
olhar para o balcão. Eu o chamei diversas vezes, juro, só não gritei porque sou
muito educada. Perguntei ao rapaz ao lado se ele poderia me atender. Claro que
não, só o rapaz ocupado poderia, no entanto ele não se mexeu para chamar o tal
rapaz. Muito irritada, procurei o responsável pela loja e ele me disse que isso
não me aconteceria mais, sei não.
Não posso só falar desse hortifruti,
que continuo frequentando apesar de toda humilhação que me impõe. Uma vez na
Viena do Rio Sul, havia um senhor e um meninote na minha frente aguardando
mesa, depois, vínhamos eu, mais uma adulta e 4 adolescentes, ou seja, seis
pessoas. A mocinha perguntou ao senhor quantos lugares ele queria, passou por
mim e perguntou à família atrás da gente a mesma coisa. Quando ela voltou, eu
lhe perguntei se preto era invisível. Ela me disse:
-Desculpe, pensei que vocês
estivessem com eles. Ele pediu cinco lugares.
Então eu disse:
- Alguém andou faltando às aulas de
matemática (porque ela tinha achado que dois mais seis daria cinco).
Ela fez aquela cara de não entendi e
não gostei, registrou o meu pedido de mesa e se retirou. Minha cunhada cismou
que tínhamos que reclamar na gerência e eu deixei pra lá, sei que não adianta
nada mesmo. Quem vai se importar com um bando de neguinhos? Mesmo assim,
ironicamente perguntei ao gerente se ele estava me vendo. Sem entender nada ele
respondeu que sim e eu lhe disse:
- Que bom que só a sua funcionária
não enxerga crioulos.
Ficou tudo por isso mesmo, até a hora
em que pedimos a taça Viena, que veio sem a salada de frutas. A garçonete me
falou que tínhamos que ter reclamado antes de comer. Como, se não dá pra ver se
tem frutas com o sorvete em volta? Só havia banana e uva e o buffet estava
cheio de frutas, então nem desculpas tinham, a não ser o fato de achar que
aquela gente preta nunca tinha comido uma taça Viena e que, portanto, não
saberia como era feita.
Bem, eu poderia ficar aqui durante
horas falando de todo o preconceito que sofro ou sofri e até das pessoas que me
acham uma neguinha metida. Uma neguinha que passa por tudo o que passo tem que
ser metida mesmo, se eu me rebaixar, aí é que montam em cima. Reclamo mesmo.
Nunca processei, porque nesse país se
alguém me chamar de macaca (como já fizeram várias vezes), o delegado vai
registrar como injúria racial e não como racismo e não vou perder meu tempo com
gente dessa laia, afinal, um tipo de gente que faz isso é muito mais infeliz do
que eu, porque se pensa superior, mas, na verdade, é um nada que tem as entranhas
iguais às minhas e se “acha” porque tem a pele mais clarinha.
Pelo menos eu tenho uma vantagem: já
nasci com filtro solar, eles não.