quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Quarta lembrança - 1ª vez na cadeia

O título é verdadeiro, mas, antes de contar essa história, deixe-me dizer que hoje estou mal. Uma gripe danada me foi passada por minha cunhada. A cabeça está prestes a explodir. Uma coriza medonha me consome. Filho e sobrinho fazendo malcriações. Enfim, saco cheio.
Vamos lá:
1960 - Tinha 7 anos e estava no primeiro ano, numa escola pública de onde eu morava. Essa escola não existe mais, foi demolida para que alargassem a linha do trem. Naquela época tínhamos que comprar tudo, não havia governo nos dando merenda nem material escolar, então, na maioria das vezes não tínhamos merenda ou quando muito, levávamos pão com açúcar. Quando o caderno acabava, os meus sempre sujos e com muitas orelhas, escrevíamos em papel de pão. Nossa borracha era miolo de pão fresco. Quando ficava velho, esfarinhava e não servia mais. Nossa cola era feita de arroz ou macarrão cozidos. No uniforme só duas letrinhas EP. Elas diziam tudo.
Bem, em outubro a escola resolveu nos levar para a Quinta da Boa Vista. Lá fomos nós, toda a escola, do primeiro ao quarto ano. Criança pra caramba. Nossa primeira visita foi ao Museu. Ficamos encantadas com tudo o que víamos. Eu e minha irmã mais velha, que na época tinha uns dez anos resolvemos ir a uma janela do museu para ficar admirando a vista. Quando demos por nós, todo mundo tinha saído da sala onde estávamos. Nos vimos perdidas.
Vagamos pelo museu, perguntando onde ficava a saída. Todos falavam: - É lá perto do elefante. Mas, que elefante? Não conseguíamos encontrar nenhum elefante. Finalmente, quando saímos do museu, nos vimos na rua, chorando como duas condenadas. O guarda de trânsito nos parou, dissemos que estávamos perdidas e ele nos levou para a delegacia mais próxima.
Passamos o dia lá. Na hora do almoço chegou comida, ainda me lembro do cardápio: feijão, arroz e carne seca com abóbora. O delegado deu uma marmita para cada uma de nós e disse que se não comêssemos tudo, ele nos poria nas celas.
Ficamos horrorizadas, passamos em frente às celas e os presos nos pediam a nossa comida. Os braços quase nos tocando.
Arranjamos um lugar para sentar e comemos aquela comida horrível: o arroz estava duro e o resto sem gosto. Depois, lavamos as marmitas e ficamos quietinhas, ali, sentadas, imaginando que ficaríamos presas até virarmos adultas. Não podíamos mais chorar, a polícia tinha proibido.
Lá pelas tantas, o guarda que tinha nos deixado lá passou para saber se alguém havia nos procurado. É claro que não.
Ele perguntou onde morávamos, quando falamos o bairro ele disse:
- Então, pode deixar que eu deixo elas em casa, moro em Nilópolis e sei onde fica esse bairro de São João.
Ficamos felicíssimas e saímos de lá de mão dadas com o guarda.
Quando estávamos na estação para pegar o trem, eis que surge toda a escola, para tomar o mesmo trem. No instante em que me viu, minha professora veio em minha direção com a mão levantada para me bater, indagando onde estivéramos até aquele momento. O guarda não permitiu que ela me tocasse e eu fiquei quietinha escondida atrás das pernas dele (fazendo caretas para todos os colegas), vai que aquela megera me pegasse.
O rapaz nos deixou em casa, contou a história do acontecido para a minha mãe, ela o agradeceu por sua bondade e ele se foi.
No dia seguinte, dona Janete, esse era o nome da minha professora, perguntou se minha mãe tinha me dado uma surra.
Disse-lhe, com meu habitual atrevimento:
- Ela não é ruim como você.
Então levei a surra e ainda fui ficar de castigo atrás do quadro - que ficava sobre um tripé - do qual eu era uma cliente contumaz. Aliás, eu adorava ficar de castigo atrás do quadro, porque eu estendia a mão por baixo dele, pegava alguns pedaços de giz e lá ficava o restante da aula, escrevendo.
A megera da dona Janete só parou de me colocar de castigo atrás do quadro no dia em que eu o derrubei em cima dela (foi sem querer, eu juro), a partir de então, as surras se intensificaram e eu passei a fugir da escola todos os dias.
Mas, isso já é outra história...

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Terceira lembrança - Vovô malvado ou temerário?

Sei que tinha uns cinco, seis ou sete anos (não me lembro direito, vovô morreu quando eu tinha sete anos), só sei que naquela época a polícia perseguia, de verdade, quem jogasse ou apontasse jogo-de-bicho. Vovô, é claro, como já tinha mais de sessenta, tinha tb muito medo de ser preso, então o que o velhinho fazia? Pedia à sua netinha, eu, nessa tenra idade que fosse fazer a fezinha para ele. Minha mãe ficava desesperada.
- Mas vovô (é, ela tb o chamava assim, embora ele fosse seu sogro) - e se a polícia aparecer? Vão prender a Nem (esse era o meu apelido, aliás, é, na família). Ela é só uma criança, vão prender a minha filha.
- Fica fria, Maria (é claro que o vovô não falava assim, é que não me lembro como ele falava e já estou atualizando sua linguagem), a Nem é esperta, na hora que a polícia chegar, ela passa pelo meio das pernas dos "meganha" e ninguém vai conseguir pegar ela.

Minha mãe sempre me deixava ir ao bicheiro, que ficava escondido nos fundos do único açougue do bairro, e eu ia, toda importante, torcendo para a polícia aparecer de verdade e eu conseguir fazer tudo o que o vovô falava.
Bem, a polícia nunca apareceu e eu, pequenininha, aprendi a chegar no açougue, jogar no bicho, fazer o pedido certo para o açougueiro me mandar para o fundo da loja e essas coisas que os meliantes fazem. Por isso entendo quando vários pensamentos desonestos passam pela minha cabeça. Culpa do vovô, o homem que mais amei neste mundo.
Lembro-me de que uma certa ocasião eu falei:
-Vovô tá com meleca no nariiiizzz!!!
Papai (que era como o chamávamos na época, em sua ausência) quis me bater, mas vovô não deixou, ele disse:
- Se ela disse que estou com meleca é porque estou com meleca e ninguém vai bater nela.
Eu fazia as minhas besteiras e me agarrava às pernas do vovô, em que ninguém podia me tocar, eram a minha muralha, minha fortaleza.
Era bom demais ter vovô em minha vida, tanto que ainda me lembro da única vez em que ele brigou comigo. Foi por uma bobeira, mas me marcou para sempre. Outra hora eu conto essa lembrança.

domingo, 2 de outubro de 2011

Segunda lembrança - O açúcar oculto

Já é quase meia-noite, 23:35 de 02/10/2011, para ser mais exata. Estou querendo ver Dr. Hollyood (não sei se é assim que se escreve. Aguarde um minutinho, vou verificar, tinha faltado um w é Hollywood). Pobrema, como dizem os pobres, adoro ver programas com cirurgias, quaisquer que sejam: cosméticas, reparadoras, de rins, fígados, seja lá quais forem, até de fimose, se passassem na TV.

Mas, o assunto aqui é uma das minhas lembranças, tenho várias hoje gostaria de escrever sobre outra, mais leve, mas vou contar a preferida de minha mãe, que como já disse, morreu há 9 meses. Que saudade, já estive longe dela muito mais tempo que isto, mas sabia que ia vê-la, agora sabendo que a falta é irreversível, a situação é insuportável. Tenho vontade de morrer e ir me encontrar com ela, minha irmã mais velha diz que irei para o outro lado, mas como o mundo gira "e a lusitana roda" espero que na hora em que eu descer o meu lado esteja bem na reta em que ela estará (a gente que é herege [como dizia mamãe] não leva nada a sério).
Vou para o túmulo com muitos segredos, não os colocarei todos aqui, não interessam a mais ninguém a não ser a mim, aliás nem a mim, quero que eles sejam apagados quando começarem os eletrochoques, pois sinto que estou piorando.
Minha lembrança de hoje é essa:

"Não me lembro o ano, tinha oito anos, poderia ser em 1961 ou início de 1962, não sei. Só sei que faltava açúcar. Imagine, naquele tempo nunca tínhamos falado em adoçantes, mel era coisa de rico e nós os pobres não podíamos viver sem açúcar. Minha mãe, já desesperada, com não sei quantos bebês para alimentar, me deu uma certa quantia e disse: - Nem, vai procurar açúcar e traz dez quilos.
Gente, eu tinha só oito anos, que responsabilidade, nenhum adulto conseguia comprar um quilinho sequer de açúcar e eu tinha que voltar para casa com dez.
Só que ao contrário do que se dizia naquela época, eu, apesar de ser criança, pensava e ouvia. Ouvia os adultos comentando que estavam escondendo o açúcar para aumentar o preço, e que existia muito açúcar nos mercados, só que eles não queriam vender.
Lá fui eu para um mercado chamado "Dragão", que ficava em frente à padaria de cima (tínhamos duas no bairro a de baixo e a de cima, depois me lembrem de contar a história do lobisomem que trabalhava na de cima).
Chegando ao "Dragão, o vendedor, que tb era o dono, foi logo me expulsando, dizendo que ali não havia açúcar. Eu fingi que estava saindo do mercado e bruscamente passei por debaixo do balcão e entrei no depósito do mesmo, lá descobri que as prateleiras estavam abarrotadas de açúcar. Não prestou, falei ao cara que havia corrido atrás de mim, que se ele não me vendesse o açúcar eu contaria a todo mundo e haveria ali um quebra-quebra, que era muito frequente na época. O rapaz ficou desesperado, embrulhou dois sacos de 5 quilos de açúcar (um saco azul de papel) num jornal, equilibrou-os na minha cabeça, recebeu meu dinheiro e me pediu para não contar a ninguém o que eu havia visto. É claro que criança não tem palavra, caminhando para casa, com aquele pezão (aumentativo de peso, não de pé) na cabeça, encontrei um vizinho (seu Assis, marido da dona Luíza) que me perguntou o que eu carregava, eu disse que era açúcar e que no "Dragão" tinha muito. O rapaz de lá negou, seu Assis voltou para casa sem o açúcar e eu passei a ser a compradora de açúcar para a vizinhança, porque o mercado só vendia para mim, não foi nada legal, carregava um peso enorme e não ganhava nada por isso, talvez nem um muito obrigada."
Minha mãe lembrou desta história até seus últimos dias para contar a todos como eu era esperta, sentia o orgulho em sua voz e isso me deixava muito feliz.
Chega por hoje, amanhã, talvez, conte a história do vovô ou aquela historinha idiota que não me sai da cabeça porque é engraçada pra mim.
Bjks